Sofrimento e Processo de Formação de Pesquisadores: uma experiência brasileira

 

Rita de Cássia Ramos Louzada
Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Luis Alberto Alves
Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
Introdução
Em 1998, a informação do suicídio de Jason D. Altom, estudante de 26 anos do Departamento de Química da Universidade de Harvard, teve grande repercussão nos Estados Unidos. Era o quinto caso ocorrido entre 1997 e 1998. Não surpreende, portanto, a polêmica que cercou o caso. Um dos artigos veiculados, à época, resumiu bem o quadro dramático: “um pós-graduando pode ser muito solitário, especialmente no campo das ciências”. O debate não parou por aí. Mobilizados pelas circunstâncias, os estudantes fizeram referências à sobrecarga de trabalho nos grupos de pesquisa, permanência num único experimento durante meses e pressão por resultados. Todos esses itens foram considerados danosos para o cotidiano dos jovens pesquisadores. Em uma das cartas deixadas, Altom criticava seu orientador. Sua morte motivou inclusive mudanças na forma de orientação de alunos da pós-graduação (NADIS, 1998; STUDLIEN, 2000)
No interior da universidade, há segmentos importantes para os quais esses eventos dizem respeito ao sujeito e, portanto, o seu tratamento deve manter-se restrito ao plano individual. Por outro lado, cresce cada vez mais o número de interessados em refletir sobre as conexões, visíveis ou não, entre a situação específica do estudante e o contexto no qual ele se insere e que pode levá-lo ao sofrimento e ao suicídio. O propósito deste trabalho é sugerir uma forma de apreciação do problema, na qual o interesse pela pesquisa dessas vivências não descarte o momento de sua articulação com a dinâmica social. Não resta dúvida que tal postulação é politicamente orientada. Do mesmo modo que é ideologicamente interessado o ângulo daqueles que não veem sentido em buscar outras explicações para além do “fato” em si, isto é, do sofrimento individual. Agora, seria possível tratar do assunto recorrendo a autores que não pertencem ao ciclo histórico atual? A nosso ver, Freud e Adorno, que serão evocados neste artigo, têm muito a nos dizer a respeito. Nas linhas seguintes, tentaremos esboçar caminhos com base em algumas de suas ideias.
 
Adorno e a pesquisa
Pouco antes de sua morte, Theodor Adorno deixou um importante depoimento sobre sua experiência científica nos Estados Unidos. No artigo, expressou sua perplexidade diante do rumo das pesquisas efetuadas nas instituições americanas. Desde o início, notou os laços entre pesquisa e interesses industriais, em prejuízo da reflexão independente. Nesse cenário, não havia espaço para a teoria crítica, uma vez que “as pesquisas deveriam cumprir-se no marco do sistema comercial estabelecido nos Estados Unidos”. A situação o impeliu a comparar o modelo europeu de metodologia, que seria algo como “crítica do conhecimento” versus o americano, que se caracterizaria, fundamentalmente, pela aplicação de técnicas. O contraste ficou ainda mais evidente durante a realização do projeto coletivo, que contava com a presença de vários pesquisadores americanos. Aliás, foi nessa época que manifestou interesse pelo jazz, tentando articular sua posição sabidamente restritiva a esse gênero com seus estudos sobre a música clássica europeia, à luz da crítica da alienação. Nesse contexto, era natural que divergências importantes viessem à tona e, de uma forma ou de outra, tivessem que ser resolvidas no âmbito da negociação entre os integrantes do projeto. Essa situação exigia cuidados e, de certa forma, colocava limites às tentativas de Adorno de dotar seus trabalhos da radicalidade que ele tanto prezava. Entre parênteses, a obra Personalidade Autoritária expressa e condensa essas tensões. Sua experiência intelectual no exílio americano deixaria, portanto, marcas profundas em seu pensamento. A maior de todas seria a rejeição em bloco do american way of life, do nazi-fascismo e do comunismo soviético. Sua produção teórica posterior expressa essa radicalização política do autor.
Com respeito ainda aos “trabalhos sobre material americano”, Adorno não disfarça que estão marcados por “uma combinação de ‘outsider’ e de observador imparcial”. Pensando bem, a autocaracterização se aplica também a suas performances em seu próprio país. Sua resistência à conversão imediata da teoria em prática, em uma época marcada pelo ativismo político, certamente lhe valeu inúmeras objeções. Dentre as quais a de se manter confortavelmente distante dos conflitos, isto é, em uma espécie de torre de marfim, indisponível à prática política concreta, conformando-se no papel de teórico. Tal restrição se estenderia também a seus textos, que revelariam certo toque idiossincrásico de sua personalidade intelectual, provocando ainda hoje desconforto nos leitores. No entanto, uma interpretação menos simplificada logo se encarrega de desfazer o equívoco, mostrando, ao contrário, o tanto de empenho político que o acadêmico impunha a suas tarefas. Nesse ponto, ele não deixou barato suas realizações, quebrando incessantemente protocolos e não se acomodando a estes, como seria normal em um acadêmico.
Se a teorização radical encerra um momento de verdade da prática, como argumenta o próprio Adorno, não é menos verdade, por outro lado, que a recusa não menos radical da práxis acabou por levá-lo ao isolamento. Agora, aqueles que optaram pela práxis não teriam também sacrificado a teoria? Adorno sugere, nas entrelinhas, que a teoria só pode se converter em prática enquanto se conserva como teoria. Como se pode ver, a mediação entre teoria e prática é bem mais complexa do que se imagina. Devemos desconfiar das respostas rápidas e prontas, diria Adorno.
Retomando o fio da meada, se é verdade que nos escritos anteriores a esse período Adorno já tinha claro a centralidade da crítica da alienação, a experiência americana certamente reforçou essa tendência. Com a vantagem de que ele viu desfilar diante de seus olhos a outra face do horror do mundo contemporâneo que tanto o incomodava: o modelo consumista da sociedade norte-americana. A experiência nesse verdadeiro laboratório a céu aberto orientaria seu pensamento para a crítica da reificação, que se manifesta tanto na sociedade como no pensamento. Voltaremos mais adiante a esse ponto.
De outra parte, Adorno também aproveitou como pôde a convivência com colegas americanos para conhecer de perto as engrenagens do prestigioso método quantitativo, largamente empregado nas universidades americanas, quase como uma espécie de correia de transmissão de interesses comerciais. Isso certamente aguçou no filósofo a necessidade de refinar ainda mais o método qualitativo, que ficava de fora dos questionários que seus colegas americanos submetiam aos entrevistados. Esse ponto é capital, pois Adorno sempre se valeu dos dados coletados nessas pesquisas para a elaboração de seus trabalhos sobre música, estética, filosofia, sociologia e psicanálise. Foi por aí que encaminhou, com rara sagacidade, a combinação de psicologia social e sociologia. Em boa dialética, cada disciplina condicionando e sendo condicionada pela outra; cada qual uma forma de mediação. Esse traço de seu trabalho intelectual, mesmo com o passar dos anos, não perdeu o interesse e, ademais, atesta o alcance de sua posição vanguardista. No final das contas, sua grande contribuição, no debate sobre método, está na denuncia do uso e do abuso que o positivismo faz (nos Estados Unidos e na Alemanha) dos dados como uma espécie de verdade indiscutível, dispensando o trabalho teórico. Segundo Adorno, essa postulação funciona na verdade como um biombo, atrás do qual se ocultam os interesses e as posições ideológicas que mascaram o andamento reificado da sociedade contemporânea. Tal discernimento praticamente confirma as linhas de argumentação de Lukács, que tão fundo influenciou Adorno, desde que leu História e consciência de classe na segunda metade da década de 1920. O impacto da leitura foi de tal ordem que Adorno tratou de incorporar, a seu modo, ao menos dois pontos decisivos da linha de argumentação do filósofo húngaro: o marxismo como método e a crítica da reificação. Desde então, Adorno se convenceu desses dois achados. Nesse particular, ele não está muito longe do que Lukács formulou tão pioneiramente em sua obra de 1922-3. A influência decisiva de Lukács não apagou, longe disso, a relação tensa e cercada de polêmicas entre ambos. De sua parte, Adorno empenhou-se em radicalizar o método dialético, valorizando sobretudo o momento negativo do conhecimento da realidade, não se obrigando a adotar o ponto de vista do proletariado (BUCK-MORSS, 1981), como requisito indispensável para a realização da dialética entre sujeito e objeto (momento positivo), como sustentara Lukács em História e consciência de classe[1].
Todavia, o alcance do método dialético fica na dependência do papel que se concede à linguagem como mediação importante na transmissão dos resultados da pesquisa, pois também nesse terreno o risco de sucumbir à lógica reificada é grande. Aliás, a certa altura de “Experiência Científicas nos Estados Unidos”, Adorno manifesta a convicção não menos radical da impossibilidade “de tratar da coisificação da consciência com métodos coisificados”. Ora, não é difícil deduzir, dessa passagem, que a escrita encerra também outro campo de batalha não menos importante: como criticar eficientemente a alienação se a própria escrita de que se vale o crítico é incapaz de resistir à alienação da linguagem? Não são poucos os momentos em que Adorno se pronunciou a respeito. Também nesse terreno Adorno inovou ao escapar dos protocolos correntes, ao sustentar que a radicalização dos procedimentos de pesquisa e reflexão deve ser transmitida também para a escrita, como se a comunicação dos resultados ficasse a cargo de um artista. A esse respeito, vale lembrar importante depoimento de Marcuse imediatamente após a morte do amigo:
 
Ele [Adorno] sempre acreditou _ e parece que continua tendo razão _ que a substância de sua obra não pode ser separada da forma na qual é apresentada. Sua linguagem é movida pelo medo de cair na reificação (...) Confesso que as frases de Adorno às vezes me deixaram enraivecido, às vezes furioso, mas creio que devem ser assim (MARCUSE, 1999: 107)
 
O mundo que Adorno não viveu
            Adorno escreveu boa parte de sua obra de 1930 até a data de sua morte, em 1969. Foram quatro décadas de produção, tendo como pano de fundo guerras, revoluções e exílio. Morreu sem conhecer o desfecho da luta de classes cujo marco foi o ano de 1968. Difícil saber como se comportaria nos anos seguintes. Adorno não viu, portanto, a guinada conservadora de meados da década de 1970 em diante e o impacto que esta produziu sobre boa parte dos países do ocidente capitalista e sobre a consciência dos intelectuais, selando o ciclo histórico do pós-guerra marcado pela intervenção do Estado na economia. A implantação de políticas sociais por governos socialdemocratas representou ganhos importantes para os trabalhadores, possibilitando inclusive a configuração de uma sociedade de pleno emprego, com mecanismos de proteção, que, em última instância, serviu de caminho alternativo à influência crescente do socialismo. A fórmula keynesiana que tanto êxito obtivera entraria em colapso nos anos 70. A crise que se seguiu favoreceu a entrada em cena dos monetaristas, para os quais se tratava de um caso clássico de recessão: queda das taxas de crescimento combinada à alta taxa da inflação. Os conservadores saíam das sombras e se apresentavam agora como únicos em condições de propor saídas. O ciclo histórico anterior chegava ao fim. Tem início o período denominado neoliberal, que desde então passou a imperar sem adversários à altura. A novidade, no caso, foi que a aplicação das novas medidas ficou, em muitos países, a cargo dos socialdemocratas recém-convertidos, como tão bem demonstrou Anderson (1995). Nenhum setor da sociedade ficou imune à avalanche do “novo” receituário. Portanto, no momento em que o neoliberalismo impôs uma vitória acachapante sobre a socialdemocracia europeia (e dez anos depois seria a vez do comunismo vir abaixo), os principais nomes da teoria crítica (Adorno, Lukács e Marcuse) já haviam morrido, ou viviam seus últimos anos de vida. Esse aspecto não pode ser desprezado.
A universidade, é claro, não fugiu à regra. Ao contrário, incorporou tão rapidamente as novidades ao padrão científico, por meio de uma bem sucedida campanha “de ajustes”, que o passar dos anos apagou sua gênese, e o modelo vitorioso passou a ser encarado como um traço constitutivo da ciência _ e não uma operação ideológica. O neoliberalismo chegou ao mundo acadêmico e, pode-se dizer, os itens fundamentais de seu receituário já pautam a pesquisa científica e condicionam seus resultados. O Brasil, nas últimas décadas, rendeu-se a essa lógica. Vejamos isso de perto.
 
Pesquisa no Brasil e neoliberalismo
Com a vitória do neoliberalismo os órgãos oficiais e as agências de fomento começam a traçar estratégias e metas com vistas à adequação da produção científica à lógica de mercado. Isso ocorre em uma conjuntura amplamente desfavorável ao pensamento crítico, derrotado nos anos que se seguiram ao pós-68. Cada vez mais a política cientifica se alinhava ao modelo americano. A consequência imediata é a pressão permanente por maior produtividade e o “compromisso” com a internacionalização da produção científica. Daqui para frente, a pesquisa deveria se adequar às exigências definidas por organismos científicos externos. Em alguns setores, a publicação de um artigo só faria sentido em um periódico indexado internacionalmente. Fora desse quadro, a pesquisa perde valor, status. O reconhecimento agora não decorre tanto da qualidade do trabalho, isto é, do tanto de conhecimento que ele mobiliza, ou da independência crítica; mas antes do veículo onde o artigo ganha publicidade e circula. Os organismos oficiais passam a festejar o aumento do volume de periódicos brasileiros indexados e as citações em determinadas bases de dados, além, é claro, da crescente circulação dos artigos de pesquisadores além das fronteiras do país.
Esses resultados foram comemorados no contexto de intensas restrições orçamentárias, por um lado, e de inúmeras transformações nas regras das atividades acadêmico-científicas, por outro. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, o Ministério da Educação reduziu drasticamente os investimentos em pessoal e infraestrutura, concentrando suas ações na parte administrativa, assegurando que o problema não era de falta de recursos financeiros, mas de gestão. Essa foi a tônica do modelo neoliberal aplicado à educação e à ciência no país. Essa tendência vem predominando desde meados da década de 1990[2]. O resultado é que houve um verdadeiro esvaziamento das instituições públicas de ensino, além de problemas de infraestrutura, não reposição de pessoal (ausência de concursos públicos), salários defasados, sobrecarga de trabalho etc.
Vale ressaltar também que, em consonância com a tendência internacional, as diretrizes das universidades públicas brasileiras vêm passando por mudanças profundas com a flexibilização de direitos trabalhistas e a adoção do modelo de gerenciamento tomado de empréstimo da iniciativa privada, com ganhos de produtividade e estímulo à competitividade acadêmica, presente também na disputa quase darwinista por recursos via editais. Vale lembrar que esse modelo de “seleção natural” prosseguiu no governo Lula e vem sendo adotado também, e sem remorsos, pela presidente Dilma Rousseff. É preciso admitir, no entanto, que os investimentos aumentaram expressivamente durante os governos Lula e Dilma. Mas não se conclua daí que ambos tenham dobrado a lógica neoliberal ou quebrado paradigmas. Longe disso. Uma visão menos apaixonada mostra justo o oposto. Os governos petistas vêm mantendo, em linhas gerais, as diretrizes estabelecidas na era FHC. Como já foi dito, seguem em vigência os processos de flexibilização e de precarização nas relações de trabalho, além da “reforma” da previdência social (ANTUNES, 1995).
No âmbito da universidade brasileira essa tendência também se materializa através da celebração de contratos temporários (professores substitutos, professores visitantes e bolsistas de diversos tipos), que passam a povoar as instituições, dando suporte ao desenvolvimento da atividade acadêmico-científica. Em suma, uma mão de obra de alta rotatividade e que não aparece de modo adequado nos indicadores científicos oficiais.
 
Formação de pesquisadores e sofrimento: aproximando Freud e Adorno
Nesse quadro, salvo melhor juízo, a formação de pesquisadores fica afetada. Embora possa ser feita ao longo de toda vida, essa experiência ocorre, no Brasil, especialmente no interior dos programas de pós-graduação. É nesse momento que os estudantes se inserem em pesquisas de modo consistente. Portanto, não há como compreender o aumento e a visibilidade da produção científica brasileira no exterior sem levar em conta o contingente de mestrandos e doutorandos incorporados ao trabalho acadêmico.
É nesse cenário que as vivências dos estudantes de pós-graduação precisam ser consideradas. Uma pesquisa feita junto a mestrandos e doutorandos de um programa de pós-graduação de excelência da área biomédica (LOUZADA, 2005) revelou que a maioria se queixava de sofrimento ao longo da formação. “Angústia”, “stress”, “preocupação” “ansiedade” “tensão” eram termos recorrentes nos relatos, aparecendo ora mais ora menos detalhados. Mas de onde viria esse sofrimento?
Em Mal-estar na cultura, Freud estudou as três fontes principais de sofrimento psíquico: o próprio corpo; o ambiente e as forças da natureza; e, por fim, os relacionamentos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. Esta última ajuda a compreender as vivências dos pós-graduandos brasileiros, uma vez que o sofrimento psíquico produzido socialmente é “mais difícil de admitir” (FREUD, 2013: 81).
Vale lembrar que os estudantes brasileiros, que pretendem trabalhar com pesquisa, precisam investir em cursos de pós-graduação. Isso pode lhes conferir títulos e auxiliar no acesso aos poucos postos de trabalho existentes. Mais para isso, eles precisarão enfrentar processos seletivos bastante concorridos, com pouquíssimas ofertas de vagas. Então, seria o caso de indagar: qual o sentido de se formar tantos doutores e pós-doutores se estes não serão absorvidos pelas instituições de pesquisas? Eis aí o paradoxo. Tal política foi adotada, conscientemente, pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que estabeleceu inclusive, em nome da boa “gestão dos recursos públicos”, diferentes níveis de precarização e flexibilização do trabalho. Isso explica, em razoável medida, a redução drástica dos concursos públicos em praticamente todos os setores do Estado, incluindo as instituições de pesquisa e as universidades. Esse quadro gerou grande incerteza quanto ao futuro dos jovens pesquisadores, que passaram a disputar bolsas como forma de sobrevivência, aguardando, sabe-se lá quando, a abertura de concursos. Os que conseguem algum tipo de inserção, como os bolsistas, perdem a autonomia e ficam a mercê de chefes e coordenadores de grupos de pesquisa, em posição, enfim, precária. Essa situação deve ser levada em conta, pois tem sido relatada como determinante para a produção de sofrimento.
Os estudantes, quando criticam os critérios de avaliação produtivista (LOUZADA, 2005), tais como, número de papers, citações, fator de impacto, entre outros, não deixam de reportar os traços que compõem o destino histórico em relação ao qual estão submetidas as instituições. Esses itens estão relacionados ao processo de trabalho na pesquisa e, por extensão, aos cursos de pós-graduação que, por sua vez, se articulam com a dinâmica social, sem que isso seja levado em conta no momento em que é debatido o rumo da ciência. O quadro é tão dramático que repercute negativamente sobre a capacidade dos estudantes entrevistados em verbalizar a sua experiência. Seria possível falar de uma naturalização dessa forma de organização do trabalho científico? Em que medida essa dificuldade de verbalização não expressa também a dificuldade de entender as engrenagens do mundo social que atuam no campo científico e que, em última análise, levam os jovens pesquisadores ao sofrimento? Com a palavra Adorno:
 
[A] sociedade forma as pessoas mediante inúmeros canais e instâncias mediadoras, de um modo tal que tudo absorvem e aceitam nos termos dessa configuração heterônoma que se desviou de si mesma em sua consciência. É claro que isso chega até as instituições (ADORNO, 2000: 181-182)
 
É claro que não se trata, aqui, de reduzir a explicação do sofrimento do sujeito ao aspecto social. No entanto, temos o dever teórico e ético de considerar o problema em toda a sua contundência e alcance. Freud percebeu muito bem a complexidade do problema em Mal estar na cultura. Ele não se esquivou de abordar o tema, mas guardou uma prudente distância em relação aos embates ideológicos de seu tempo, o que frequentemente lhe valeu o rótulo de conservador. Adorno jamais endossou esse juízo. Ao contrário, percebeu, como poucos, a peculiaridade e a sutileza dos caminhos escolhidos por Freud. É da natureza do método de Freud, prossegue Adorno, refletir sobre questões sociais decisivas com base “em categorias puramente psicológicas”. Na aparente cautela excessiva de Freud se oculta, ainda segundo Adorno, o rigor e a radicalidade de seu pensamento. Os ganhos que Freud trouxe à reflexão crítica são definitivos e
 
Mientras que Freud no se ocupó él mismo de los cambios sociales, puede decirse que desarrolló, dentro de los confines monadológicos del indivíduo, las líneas de su profunda crisis y disposición a someterse dócilmente a ponderosas instituciones exteriores, colectivas. Sin dedicarse él mismo al studio de desarrollos sociales contemporáneos, Freud señaló tendencias históricas mediante el desarollo de su proprio trabajo, la elección de sus temas, y la evolución de los conceptos guía. (ADORNO, 2004: 383)
 
O caso Jason Altom, citado no começo, é emblemático, pois condensa aspectos onde a competitividade é levada ao extremo. O problema, segundo Alan Long, diretor do Laboratório de Química da Universidade de Harvard[3], é que as pessoas que estão em Harvard são “competitivas por natureza”: “Harvard is Harvard”. Pode ser. Mas, na nossa visão, o dirigente tende a naturalizar o que é resultado de uma lógica social, isto é, um processo que corre nas costas dos sujeitos. É preciso considerar a forma de administrar a formação dos pesquisadores.
Se a partir de Freud é possível entender as fontes de sofrimento, em Adorno vamos encontrar os estímulos para dar o passo adiante: desvelar nos relatos das vivências as engrenagens sociais que estão na base do problema. Em suma, Adorno explicita o que em Freud está pressuposto, cautelosa e sabiamente anunciado.
 
 
Referências Bibliográficas
ANDERSON, P. Balanço do Neoliberalismo. In: SADER, E & GENTILI, P (orgs.) Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
_____. FHC deixou saldo negativo, diz historiador.Folha de São Paulo, 10 Novembro 2002. Disponível http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1011200228.htm [Acesso em 23 de abril de 2013].
ADORNO, T. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
_____.  Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
_____. Escritos sociológicos I. Madrid, España: AKAL, 2004.
ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez, 1995.
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_____. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG)- 2011-2020. Brasília/DF: CAPES, 2010. Disponível em http://www.capes.gov.br/images/stories/download/Livros-PNPG-Volume-I-Mont.pdf
BUCK-MORSS, S. Origen de la dialéctica negativa. Theodor Adorno, Walter Benjamin y El Instituto de Frankfurt. México: Siglo Veintiuno, 1981.
FREUD, S. O Mal-estar na Cultura. Porto Alegre/RS, 2013.
LOUZADA, R C R. Formação do pesquisador, trabalho científico e saúde mental. Rio de Janeiro, 2005. Tese de Doutoramento apresentada ao Instituto de Psiquiatria da UFRJ, 2005, 161 pag. Disponível em http://teses.ufrj.br/IPUB_D/RitaDeCassiaRamosLouzada.pdf [Acesso em 20 de agosto de 2013]
LUKÁCS, G. História e consciência de classe. Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MARCUSE, H. A grande recusa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
NADIS, S. Suicide highlights graduate students woes. Nature, v. 395, n. 826, 29 October 1998. doi: 10.1038/27487
SLAUGTHER, S & LESLIE, L.  Academic capitalism. Politics, policies and the entrepreneurial university. Baltimore/London: Johns Hopkins University Press, 1999.
STUDLIEN, K G. Turn Off The Bunsen Burner. The Harvard Crimson, Available at http://www.thecrimson.com/article/2000/11/2/turn-off-the-bunsen-burner-pin/ [Acesso em 19 de agosto de 2013]
 


[1] Essa divergência alimentará a polêmica histórica entre ambos. Como manter a autonomia da reflexão crítica sob pressão constante das instâncias partidárias?
[2] De acordo com Meireles, ex-presidente do Banco Central no Governo Lula, “em 1995, o Brasil investia 3,7% do PIB em educação, bem abaixo da média da OCDE (grupo dos países mais desenvolvidos). Hoje [2013], investe 5,2% do PIB, superior à média de 4,8% da OCDE”. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/henriquemeirelles/2013/11/1372489-ensinando-a-ser-rico.shtml 
 
[3] Informação encontrada em STUDLIEN (2000).